O conjunto arquitectónico constituído pelos edifícios dos ex-Seminário e Paço Episcopal constitui-se como a mais significativa e emblemática construção do período Moderno na cidade da Guarda. Símbolo do poder e autoridade religiosa da época e sob patrocínio de Filipe II, viu a sua importância histórica, cultural e a sua coesão arquitectónica e urbanística reconhecida através do estatuto de imóvel de interesse público pelo Dec. Lei 28/82 de 26 de Fevereiro.
O Museu da Guarda encontra-se instalado no edifício do ex-Seminário Episcopal, obra de D. Nuno de Noronha, que governou a Diocese Egitaniense entre 1594 e 1608.
O Seminário tridentino da Guarda foi construído fora da cinta muralhada, na encosta Este, local para onde a cidade anunciava, já então, o futuro crescimento urbano. O complexo arquitectónico de cariz religioso, do qual faz parte integrante o Paço Episcopal, foi estruturante no quadro do desenvolvimento da malha urbana da cidade. Edificado nas primeiras décadas do século XVII, durante o domínio filipino, a expensas da Diocese de acordo com as determinações do Concílio de Trento, condição que, para sempre, ficou expressa na inscrição existente sobre o lintel da entrada principal, inscreve-se do ponto de vista arquitectónico, na corrente estética da Contra-Reforma. Revela, em termos de filiações estilísticas, influências eruditas clássicas e em cuja especificidade se enquadram a planimetria em forma de U, o decorrente pátio interior e o recurso estrutural ao arco de volta perfeita na planta térrea.
O contexto cultural da Contra – Reforma e o Concílio de Trento indicaram um purismo arquitectónico que George Kubler definiu, em 1988, por estilo chão. Este estilo, que atravessaria o século XVII e XVIII caracterizou-se por uma expressão construtiva marcada por uma sobriedade herdada da arquitectura militar e pelos condicionalismos importados pela conjuntura religiosa (Miguel Soromenho, 1995).
O despojamento decorativo alia-se às regras estritas de organização funcional da instituição de carácter educativo. Com efeito, os raros ornatos dizem respeito ás gárgulas tubulares, à pedra de armas eclesiástica e a duas inscrições; no lintel do portal principal “NONIVS HOS ADITVS MVSARVM /INSTRVXIT IN VSVS PONTIFICIS / LABOR EST PIERIDVM AVE DOMVS”, (Nónio construiu estes acessos das musas. A obra é para uso do pontífice. Salvé, ó Mansão das puérides) e no cunhal sul da fachada principal, antecedendo a pedra de armas episcopais: “D.Nuno de Noronha Bispo da Guarda Filho do Conde D Odemira, Instituio este Seminário e o Comecou no Anno de 1601”.
O edifício onde se encontra instalado o Museu da Guarda apresenta uma sobriedade formal e decorativa, de linhas despojadas, superfícies planas e límpidas onde as próprias molduras dos vãos são pouco salientes e as pilastras têm uma função absolutamente estrutural. Esta sobriedade é acentuada pela silharia de blocos rectangulares de granito, dispostos em fiada, que tornam o imóvel notável pelas suas vastas proporções.
O edifício organiza-se, assim, maioritariamente em torno de um pátio austero que, previsivelmente, terá sido um espaço ajardinado.
O recurso estrutural e decorativo ao arco de volta perfeita revela-se no acesso ao pátio interior, na longitudinal arcada interior do piso térreo (embora com deficiente rigor construtivo) e no portal lateral do alçado sul. A distribuição de percursos e acessos ao interior do edifício far-se-ia pelas quatro portas, coevas da construção e que se identificam nos respectivos ângulos do pátio interior. A zona de transição, coberta, entre a via pública e o edifício, através do portal principal, só recentemente passou a ter a função antes atribuída àquelas portas.
Ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX foi objecto de diversas intervenções que terão provocado alterações arquitectónicas nomeadamente ao nível dos vãos e na planimetria do pátio interior. É, certamente, por este facto que são hoje identificáveis diversas tipologias de vãos e alguns entaipamentos ao longo do edifício.
A campanha de obras destinada a remodelar e ampliar o Museu da Guarda, 1982-85, criando um espaço museográfico amplo e único, fez desaparecer do corpo principal toda a estrutura interna.